Diabetes Gestacional E Dieta Low Carb

//Diabetes Gestacional E Dieta Low Carb

Diabetes gestacional (DMG) é um dos distúrbios metabólicos mais frequente no ciclo gravídico, lembrando que o Brasil é o 4o país com a maior taxa de DM em adultos. Estima-se que 1 em cada 6 nascimentos ocorra em mulheres com alguma forma de hiperglicemia durante a gestação.

Nos últimos 20 anos houve aumento progressivo no número de mulheres com diagnóstico de diabetes em idade fértil e durante o ciclo gravídico puerperal, chegando a 18% das gestantes atendidas no SUS. Alguns dos fatores que contribuem para esse dado são: aumento da idade materna, sedentarismo e aumento da prevalência de obesidade.
A melhor definição de diabetes gestacional foi dada pela IADPSG (International Association of Diabetes in Pregnancy Study Group) em 2010, no qual classifica 2 situações diferentes: diagnóstico de DM na gestação e diabetes gestacional propriamente dito. No primeiro caso, a gestante provavelmente já apresenta resistência insulínica ou diabetes antes da gestação porém sem diagnóstico, sendo que no segundo, o diabetes gestacional geralmente ocorre por volta de 24 a 28 semanas em decorrência de má adaptação metabólica aos hormônios hiperglicemiantes da gestação.

Em termos fisiopatológicos, a gestação caracteriza-se por estado de resistência à insulina. Essa condição, aliada à intensa mudança nos mecanismos de controle da glicemia, em função do consumo de glicose pelo feto, pode contribuir para ocorrência de alterações glicêmicas favorecendo o desenvolvimento de DMG. Além disso hormônios produzidos pela placenta e outros aumentados pela gestação, tais como lactogênio placentário, cortisol e prolactina, podem promover redução da atuação da insulina em seus receptores e, consequentemente, aumento da produção de insulina nas gestantes saudáveis. Esse mecanismo, entretanto, pode não ser observado em gestantes que já estejam com sua capacidade de produção de insulina no limite. Essas mulheres têm insuficiente aumento de produção de insulina e, assim, podem desenvolver diabetes durante a gestação.

Nos últimos anos saíram muitos estudos a respeito de dietas focadas em emagrecimento e controle do diabetes. Dentre tantas, a dieta low carb foi uma das que mais chamou atenção dos profissionais da saúde e mídias, devido ao importante impacto que apresentou nos resultados da maioria dos pacientes que a praticam. É caracterizada pelo consumo de comida de verdade – alimentos ricos do ponto de vista nutricional – com prioridade para vegetais de baixo amido, carnes, ovos, frutas, oleaginosas, derivados do leite, gorduras boas. Evita-se ao máximo o consumo de alimentos industrializados e ultraprocessados. A restrição de carboidrato pode ser aplicada de várias maneiras, dependendo da individualidade de cada paciente e dos objetivos, variando assim as porcentagens de carboidrato em relação ao total calórico do dia. (por exemplo: pode ser realizada de forma mais rígida limitando-se a quantidade de carboidrato para 20% das calorias diárias como até 40% , dependendo de cada caso.)

Respeitar a individualidade de cada paciente é fundamental, bem como um bom acompanhamento multidisciplinar com médico, nutricionista, educador físico, e muitas vezes psicólogo, que poderá ajudar a gestante a trabalhar sua relação com a comida. Durante toda a gravidez sugere-se que a paciente se alimente com frequência, respeitando os limites do corpo e sabendo diferenciar a fome fisiológica da fome com caráter emocional. Nesse quesito a terapia comportamental pode ser benéfica.

Existem muitos estudos a respeito da estratégia nutricional low carb, que muitos consideram até mesmo um estilo de vida, porém poucos envolvendo gestantes. Diante dos achados mais relevantes, nota-se que a dieta low carb em gestantes, praticada com vigilância adequada do obstetra, endocrinologista e nutricionista é segura nas pacientes que apresentam resistência insulínica e/ou diabetes gestacional. A atividade física nesse grupo de pacientes também diminui a resistência insulínica, além de apresentar inúmeros outros benefícios.

A dieta, quando bem elaborada pode contribuir de forma importante no controle de peso, evitando-se assim o uso de medicamentos. Acredita-se que uma dieta baseada em carboidratos complexos, alimentos ricos em fibras e de baixo índice glicêmico, frutas da estação e com moderação, gorduras de boa qualidade, proteína animal e/ou vegetal (nos casos das pacientes veganas) preenchem todas as necessidades de macro e micronutrientes que as gestantes necessitam, sem riscos para o feto.

Estudos recentes sugerem que uma dieta composta de 50 a 60% de carboidratos está relacionada com excessivo ganho de peso e hiperglicemia pós prandial em gestantes de risco (idade materna avançada, obesidade, antecedente de filhos macrossômicos, história familiar). A quantidade adequada de carboidrato nesses casos vai depender de cada gestante, porém os profissionais de saúde devem orientar as pacientes e familiares sobre a importância de seguir uma alimentação consciente, rica em nutrientes e livre de alimentos de baixo valor nutricional.

Deve-se evitar também alimentos processados, com aditivos químicos, corantes e açucares, que muitas vezes estão “camuflados” dentre os ingredientes dos produtos industrializados.
Resumindo, na prática obstétrica não existe a dieta certa ou errada. Existe sim avaliação criteriosa de todas as gestantes, triando todos os fatores de risco e adotando conduta de bom senso, individualizando cada uma das pacientes.

O seguimento pre natal deve ser realizado por equipe multidisciplinar , a qual deve escolher qual melhor tipo de dieta para cada uma, focando sempre em alimentos com alta densidade nutricional. A quantidade de carboidrato deverá ser calculada respeitando-se as necessidades de cada gestante, e orientar sobre a importância da inclusão de carboidratos complexos, de baixo índice glicêmico e sobre a exclusão de alimentos processados repletos de açúcares, gorduras hidrogenadas e substâncias artificiais.

Dra. Carla Delascio LopesGinecologista e Obstetra
Pós Graduacao em Medicina Fetal pela UMIFESL
Mestrado em Ciencias pela UNIFESP
Pós graduacao em Nutrologia pela ABRAN

Referências Bibliográficas

  • Real Food for Gestacional Diabetes – An effective alternative to the conventional nutrition approach . By Lily Nichols, RDN, CDE. ISBN 13: 978-0-9862950-1-0
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    RASTREAMENTO E DIAGNÓSTICO DE DIABETES MELLITUS GESTACIONAL NO BRASIL